Perda de olfato causada pela Covid-19 pode ser permanente, indica estudo brasileiro

Perda de olfato causada pela Covid-19 pode ser permanente, indica estudo brasileiro

Depois de dois meses e meio do primeiro contato, os pesquisadores conseguiram encontrar novamente cerca de 140 dos participantes que tiveram a anosmia. Mais de 95% desses ex-pacientes contaram que a capacidade de sentir cheiros havia voltado totalmente ou, pelo menos, parcialmente. Mas quase 5% dessas pessoas afirmaram que o sintoma permaneceu.

Segundo Brandão, os resultados já foram submetidos para publicação e aguardam revisão de outros cientistas.

Para Fabrizio Romano, otorrinolaringologista e presidente da Academia Brasileira de Rinologia (ABR), a anosmia é mais comum em pessoas infectadas pelo novo coronavírus do que em pacientes com outras doen√ßas causadas por vírus respiratórios. Cerca de dois ter√ßos dos infectados desenvolvem o sintoma, estima o médico. A recupera√ß√£o também é mais lenta do que em outros casos.

Cientistas de institui√ß√Ķes norte-americanas têm investigado como o novo coronavírus causa a anosmia. Em um artigo publicado no fim de julho na revista científica Science Advances, os pesquisadores demonstraram que o patógeno gera o sintoma ao infectar células de suporte do sistema olfativo, mas n√£o os neurônios que captam as partículas com os cheiros e passam a informa√ß√£o para o cérebro.

As células de suporte ficam no interior do nariz e s√£o respons√°veis por uma série de fun√ß√Ķes químicas que tornam o olfato possível. Elas possuem o receptor ACE2, ao qual o novo coronavírus consegue se conectar para gerar uma infec√ß√£o.

"Para que esse sistema funcione corretamente, as células de suporte precisam trabalhar para que o neurônio consiga transmitir o sinal químico", explica Romano. Segundo o médico, a chegada do vírus ao nariz pode causar uma inflama√ß√£o no local que impede as células de cumprir sua fun√ß√£o plenamente, e assim os infectados têm dificuldades para sentir cheiros e sabores.

Como ainda n√£o h√° provas de que o novo coronavírus cause les√£o nos neurônios olfatórios, os médicos dizem que, mesmo com chances pequenas, um dano permanente no olfato pode ocorrer quando uma infec√ß√£o nas células de suporte é muito agressiva –o que parece ser possível em alguns casos da infec√ß√£o causada pelo coronavírus Sars-Cov-2.

De acordo com os especialistas, o melhor caminho é procurar ajuda médica o quanto antes. "Ficamos preocupados com o fato de que muitos desses pacientes n√£o est√£o melhorando espontaneamente. H√° um prejuízo na qualidade de vida dessas pessoas", afirma Romano.

"Deixamos olfato e paladar em segundo plano e só percebemos a falta que fazem quando os perdemos. Vejo os pacientes angustiados e ansiosos com rela√ß√£o ao tempo de recupera√ß√£o. Os impactos na qualidade de vida podem ser brutais", diz Brand√£o. O otorrinolaringologista lembra ainda que o olfato funciona também como um sistema de alerta para seguran√ßa quando sentimos cheiro de comida estragada ou vazamentos de g√°s, por exemplo.

H√° terapias específicas para acelerar a recupera√ß√£o dos pacientes e reverter os danos. "É melhor procurar um tratamento precoce para evitar as sequelas", afirma Brand√£o.

Outros estudos sobre os efeitos da Covid-19 no olfato est√£o em andamento em centros de pesquisa pelo país e devem ter resultados divulgados nos próximos meses, diz Romano. De acordo com o médico, esses estudos usam outras técnicas para medir a perda do olfato e n√£o se baseiam apenas nos relatos dos pacientes.

"Muitas vezes, o paciente diz que recuperou a fun√ß√£o, mas, quando fazemos um teste, vemos que a recupera√ß√£o ainda n√£o foi completa. A tendência é que os dados desses estudos nos mostrem um número ainda maior de pessoas afetadas pela anosmia", conclui Romano.

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